
11 de janeiro de 2010

2 de agosto de 2009
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Fraseador
Hoje eu completei oitenta e cinco anos. O poeta nasceu de treze. Naquela ocasião escrevi uma carta aos meus pais, que moravam na fazenda, contando que eu já decidira o que queria ser no meu futuro. Que eu não queria ser doutor. Nem doutor de curar nem doutor de fazer casa nem doutor de medir terras. Que eu queria era ser fraseador. Meu pai ficou meio vago depois de ler a carta. Minha mãe inclinou a cabeça. Eu queria ser fraseador e não doutor. Então, o meu irmão mais velho perguntou: Mas esse tal de fraseador bota mantimento em casa? Eu não queria ser doutor, eu só queria ser fraseador. Meu irmão insistiu: Mas se fraseador não bota mantimento em casa, nós temos que botar uma enxada na mão desse menino pra ele deixar de variar. A mãe baixou a cabeça um pouco mais. O pai continuou meio vago. Mas não botou enxada.
Manoel de Barros
Memórias Inventadas, A Infância
1 de agosto de 2009
3 de julho de 2009
Notas Biográficas
Pedro Lamares
Nasceu a 2 de Março de 1979. Estudou artes plásticas, passou pela escola de jazz do Porto (1996/7), frequentou o curso de preparação para licenciatura em música sacra, na Universidade Católica do Porto, sob orientação do Cónego Ferreira dos Santos (1997/98). Estudou teatro (interpretação) na Academia Contemporânea do Espectáculo (Porto, 1998/2001). Complementou a formação com cursos e oficinas de teatro de rua (Natural Theatre Company, de Inglaterra), voz (Bernard Messuir, da Bélgica), naturalismo (Rogério de Carvalho, de Moçambique), clown (Alan Richardson, de Inglaterra), máscara neutra (Kuniaki Ida, do Japão) e dança vertical (Roc in Lichen, de França).
Participou em espectáculos como “As três irmãs” de tchekov; “Tio Vânia”, de Howard Barker; “O Quebra-nozes” de Tchaikovsky; “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” de Jorge Amado; “Os Saltimbancos” de Chico Buarque; “Carmina Burana” de Carl Orff. Foi dirigido por encenadores, coreógrafos e maestros (Rogério de Carvalho, Mieta Corli, Marcelo Ferreira, Joana Providência, João Paulo Santos, entre outros).
Em televisão integrou o elenco fixo de: “Dei-te Quase Tudo” (de Tozé Martinho – 2005/6, TVI); “Deixa-me Amar” (da Casa da Criação – 2007/8, TVI); “Olhos nos Olhos” (de Rui Vilhena – 2008/9, TVI); “Sentimentos” (de Tozé Martinho –2009/10, TVI). No Brasil gravou “Paixões Proibidas” (de Aimar Labaki – 2006/7, T.V. Bandeirantes e RTP). Participou em dois telefilmes da série Casos da Vida (TVI): “A Mulher do Soldado” realizado por Artur Ribeiro (com Sandra Santos, Nicolau Breyner, entre outros) e “Passo em Falso” realizado por António Correia (com Daniela Ruah, João Grosso, entre outros). Participou na série “Pai à Força”, da RTP. Protagonizou várias curtas-metragens.
Desde 1997 vem-se dedicando a espectáculos e recitais de poesia, tendo participado, entre outros, em festivais nacionais e internacionais (Em Voz Alta; Encontros de Talábriga; Bienal Internacional de Poesia; As 24 horas de Poesia); Recitais da Fundação Eugénio de Andrade (Porto e Bruxelas); Quintas de Leitura no Teatro do Campo Alegre (Porto); Comemorações do Dia Internacional da Mulher (Faial e Terceira, Açores); Festa da Poesia, no Centro Cultural de Belém (Lisboa 2008/9); 1º Encontro Nacional de Dezedores de Poesia (Praia da Vitória, Açores). Nesse percurso teve a oportunidade de ler com poetas (Nuno Júdice, Pedro Tamen, António Ramos Rosa, Manuel António Pina, Ana Hatherly, José Tolentino Mendonça, Maria do Rosário Pedreira, Gonçalo M. Tavares, Ana Luísa Amaral, Rosa Alice Branco entre outros) e músicos (como Álvaro Teixeira Lopes, Mário Laginha, Ana Deus, Pedro Abrunhosa, Adolfo Luxúria Canibal, entre outros).
Dirigiu espectáculos de poesia e música, na Casa das Artes de Famalicão, Teatro do Campo Alegre, Casa da Cultura de Paredes, auditório de Castro Daire, entre outros.
1 de julho de 2009
Um pianista de formação clássica que não se importa de arriscar. De “descompor”. Que é apaixonado pela comunicação. Que quer experimentar, desde que faça sentido. Desde que mexa, porque parada é já a banalidade e a vida é demasiado curta e preciosa.
Um actor que diz poesia. Que lê poesia. Que é apaixonado pela palavra. Que estudou música, trabalhou com músicos e está sedento de crescer. De explorar. De trocar. Que optou pelo instrumento da voz falada e quer fazer parte da música. Integrar.
Um jantar. Uma conversa que foi passeando em Luís Miguel Nava, Fernando Pessoa, Schumann, o amor, Sophia de Mello Breyner, J.S. Bach, fotografia, Herberto Hélder, tarot, pintura, Amílcar Vasques Dias, Al Berto, astrologia… Tudo misturado. Tudo organizado pelo seu lugar natural e próprio. Pelo respeito. Pela vontade de construir, sem delírios. De assumir limites para tornar claro. De criar.
Estava lançada a semente. O projecto aconteceria. E aconteceu, cinco anos depois deste encontro. A concepção foi breve, a gestação demorada. Foi o seu tempo. O tempo que lhe coube. Nós fomos atrás, como nos cabia. Chama-se COiNCIDÊNCIA. 
O primeiro espectáculo do projecto COiNCIDÊNCIA.
O nome foi “roubado” da artista plástica Manuela Pimentel e da sua “revolta dos azulejos”. Ela que, por sua vez o tinha “roubado” às mensagens de amor deixadas nas paredes da cidade, tornando-nos testemunhas dessa intimidade pública. Desta vez, são os azulejos tradicionais portugueses que tapam os cartazes. Do projecto + ou - fixação proibida, saem as figuras avulso e os painéis de (supostos) azulejos pintados sobre cartazes de rua, revestidos a resina e estalados em forma de envelhecimento. Sobre eles, os stencils que falam connosco nas paredes das cidades. Amo-te, é o que nos dizem.

“O primeiro desejo dos amantes
é serem velhos amantes
e começarem assim o amor
pelo fim”
Regina Guimarães
Amo-te é uma viagem.
A partida é dada com o poema de Regina Guimarães.
Uma viagem pelo universo dos afectos, com as suas dependências e emancipações. A diluição do “eu” e o inevitável retorno. O inconsciente colectivo e a consciência do indivíduo.
A viagem começa na passagem do primeiro amor (no útero da mãe) para a primeira rejeição no caminho do indivíduo – o nascimento.
O piano, a voz e a imagem vão dialogando e coincidindo num espaço cénico simples, de luz íntima e artesanal, “como uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer” (Maria do Rosário Pedreira).
A viagem termina como qualquer ciclo: junto ao lugar onde começou, com um olhar diferente porque a experiência é transformadora. Se os amantes começam o amor pelo fim, nós terminamos junto à morte, de olhos abertos, pensando que “se a juventude viesse novamente do fundo de mim com suas raízes de escamas em forma de coração, pegaria sem hesitações no leme do frágil barco (…) mas não estou triste” (Al Berto).
“O poente é belo e é bela a noite que fica…
assim é
e assim seja” (Alberto Caeiro).
Foto – Luís Tobias....................................................................... texto - Pedro Lamares
Ficha Técnica
Direcção Artística - Álvaro Teixeira Lopes e Pedro Lamares
Piano e Reportório Musical - Álvaro Teixeira Lopes
Voz e Selecção de Textos - Pedro Lamares
Imagem - Manuela Pimentel
Som - Inês Lamares e Luís Carlos Pereira
Direcção Cénica, Luz e Edição de Imagem - Pedro Lamares
Produção - Projecto COiNCIDÊNCIA
Assistente de Produção - José Freitas
Comunicação - www.self-design.com
Fotos (cartaz e programa) - Luís Tobias e Mafalda Capela
Poetas:
Adília Lopes
Al Berto
Alberto Caeiro
Alexandre O’Neill
António Franco Alexandre
António Lobo Antunes
António Ramos Rosa
Carlos Oliveira
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
Emanuel Félix
Eugénio de Andrade
Gonçalo M. Tavares
Herberto Hélder
Joaquim Castro Caldas
Jorge Sousa Braga
José Carlos Ary dos Santos
Maria do Rosário Pedreira
Maria Teresa Horta
Mário Cesariny
Mário de Sá Carneiro
Mário Henrique Leiria
Natália Correia
Norberto Ávila
Regina Guimarães
Ruy Belo
Sophia de Mello Breyner
Compositores:
Johann Sebastian Bach
Camargo Guarnieri
Leos Janacek
António Pinho Vargas
Robert Schumann
Piotr Ilitch Tchaikovsky
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14 de junho de 2009
J.N. - Junho 2009
O que está aqui apresentado é a versão integral da entrevista, respondida por escrito. Para ver a versão editada pelo jornal e publicada na edição de domingo, 14 de junho de 2009, por favor clique em Jornal de Notícias
Tem uma formação muito completa. Acredita que para se ser actor não basta um dom inato?
Acho que a minha formação é mais diversificada do que propriamente completa em qualquer uma das áreas em que me envolvi.
Seja como for acho que, em qualquer área de trabalho, se aliarmos uma eventual “vocação” à “formação” só temos a crescer e a ganhar com isso.
Como olha para os colegas que têm vindo a emergir, uns a reboque da imagem, outros de um mediatismo concedido, por exemplo, pelo fenómeno "Morangos com açúcar"?
Tento olhar caso a caso. Já fui mais crítico do que sou agora, em relação a isso. Hoje acho que depende muito dos objectivos e da postura de cada um. Mesmo trabalhando na mesma área há pessoas com objectivos muito diferentes, e o mercado vai tendo espaços para várias formas de estar na profissão. Há gente que veio de outras áreas, ou que não teve formação formal e que depois tem uma postura muito séria, quer ao nível do profissionalismo quer ao nível da receptividade para aprender e para crescer. Cada vez valorizo mais a formação humana, o crescimento, a busca e a honestidade no ofício que se escolhe.
Para se tornar um bom profissional, é preferível ser-se razoável em muitos registos, ou excelente num só?
Bom mesmo, era ser-se excelente em vários!
Acredito que “tocar vários instrumentos” torna muito mais improvável ser-se muito bom em qualquer um deles, e falo por mim que andei anos da minha vida a “apalpar terreno” e a experimentar várias formas de expressão. No entanto quando trabalho em espectáculos onde interajo com músicos, bailarinos, artistas plásticos, luz, som, etc., é muito bom falar um bocadinho a língua deles. Ajuda-me a compreender. A integrar. E dá-me um prazer enorme essa interacção. Acho que é o que mais gosto no meu ofício e uma das coisas que mais gosto de fazer na vida.
Confesso apaixonado de poesia e remetendo para as "Quintas de leitura", estes textos, para serem ditos, requerem dotes de representação, ou basta neles depositar sentimento?
Eu sou da opinião que dizer poesia não é, ou não deve ser, representar, no sentido em que não pressupõe a composição de uma personagem. Claro que em termos de voz e de palco, a técnica de um actor facilita o trabalho de dizer um poema em público.
Acho que acima de tudo é necessária uma paixão, um grande respeito pelo texto, ser-se verdadeiro na forma como se diz, mas não pretender ser outra pessoa. Tenho a convicção de que para se fazer um Hamlet se deve trabalhar para ser Hamlet; mas para dizer um poema não preciso e não devo tentar ser o Álvaro de Campos, a Sophia ou os seus sujeitos poéticos.
Para procurar um equilíbrio, gosto de pensar que o que fica na memória de quem ouve um poema dito, deverá ser o poema, muito mais do que quem o disse.
Como descreve o projecto "Caixa geral de despojos"? Representa uma espécie de papel catártico na sua vida?
Não propriamente… A “caixa” tem sido para mim um laboratório de experiências, um lugar de partilha e de carinho. Foi um grupo que se formou sem ter consciência de que se estava a formar. Fomos agregados pelo João Gesta e pelo Daniel Jonas, como um grupo de amantes de poesia, para fazer um espectáculo no Teatro do Campo Alegre chamado “caixa geral de despojos” em Janeiro de 2003. Quando demos por nós éramos já um grupo com esse nome. Trata-se de conjunto de pessoas de várias áreas (poetas, actores, jornalistas, fotógrafos) que gostam de poesia e que às vezes até têm formas de a encarar bastante diferentes.
Em seu entender, Poesia é... e Prosa é...?
Essa é difícil… Vejo a poesia como a concentração essencial da emoção, das imagens, da experiência sensorial. Uma espécie de energia atómica ou térmica. Que é indivisível. Arde por dentro, aquece, queima, vive na eminência de “rebentar”. Já a prosa, nesse jogo, seria mais a energia hidráulica. A construção demorada, porém poderosíssima. O correr da água. Um caminho que se vai construindo de forma mais lenta e cristalina.
“Falhar, falhar de novo, falhar melhor.” É também um lema que embandeira individualmente? Porquê?
Sim. Ainda que eu gostasse de acertar mais vezes! Esse é o lema da “caixa” e nasce a partir de Samuel Becket. Gosto muito dessa ideia de irmos integrando os nossos erros para fazer melhor, não deixando de arriscar. Voltando ao Campos, na Tabacaria escreveu “Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?”.
Partilha da ideia ventilada de que um actor só se realiza no palco?
Não. Eu vou-me sentido realizado em várias experiências. Ainda não fiz, por exemplo, cinema (só curtas-metragens) para saber que nível de experiência poderá advir daí. Mas é verdade que adoro trabalhar em palco, em parte pelo processo, os ensaios, a experimentação, o aprofundamento. E, claro, ter o público à frente é uma experiência única. É arrepiante.
Acredita que as novelas são uma forma de ficção menor do que aquela que o Teatro oferece?
“Menor”? Depende de que “tamanho” estivermos a falar.
Eu já vi do melhor e do pior, em novelas como em teatro.
Acho muito fácil e pouco consistente formar esse tipo de juízo generalizado. Além do mais são produtos que podem desempenhar funções sociais e comerciais muito diferentes.
Dos personagens que tem vindo a vestir no pequeno ecrã, qual se aproxima mais do Pedro?
Talvez o Matheus, das “Paixões Proibidas”. Quando isso acontece a primeira coisa que faço é tentar construir um histórico para o personagem que me ajude a distanciá-lo de mim. Aprendi isso com a Natália Luíza.
É verdade que dá mais gozo interpretar um vilão, como aconteceu em "Deixa-me amar" do ponto de vista de exorcizar o lado sombrio que todos comportamos?
Eu acho mais divertido. O personagem que mais gozo me deu fazer em televisão foi o Pedro, do “Passo em Falso”, um filme da série Casos da Vida. Era um médico obsessivo, psicótico e perigoso. Foi realizado pelo António Correia, direcção de actores da Karla Muga e contracenei com a Daniela Ruah, o João Grosso e a Adriana Moniz. Adorei fazer esse trabalho. Gravámos em quatro dias. Foi uma loucura.
As novelas de Rui Vilhena são, de certa forma, associadas a uma maior complexidade do guião, sentiu esse desafio extra com o papel de Jonas Viana Levi?
Senti, sim. Eu admiro muito a escrita/autoria do Vilhena. As personagens servem a história sem normalmente corromperem a sua própria estrutura e coerência. São muito consistentes. Isso é um desafio e ao mesmo tempo uma grande ajuda.
Há alguma preocupação neste trabalho em transmitir mensagens subliminares que só podem ser lidas nas entrelinhas?
Sim, há. A própria equipa de realização coordenada pelo Carlos Dante e a directora de actores Maria Henrique pediam isso.
Afinal, quem é o Jonas Viana Levi para o Pedro Lamares?
Um tipo leal, de princípios rectos, com uma educação rígida virada para o sucesso, que está completamente desorientado na vida. Sabe o que não quer mas não faz ideia do que quer, e já não suporta mais o peso e a pressão que a família e a sociedade lhe colocam em cima no sentido de ter uma carreira, um comportamento formatado e um lugar de destaque na sociedade. Uma espécie de “patinho feio” ou “Peter Pan”, à sua maneira.
"Olhos nos olhos" é demasiado vanguardista para o público português?
Não. A Vanguarda tem a ver com um movimento pioneiro, que antecipa o que está para vir. O que acontecia nessa novela era tratar de temas que já existem na realidade actual, alguns bastante antigos, que continuam a ser fracturantes e duros para a sociedade. Talvez fosse um produto para um público menos generalizado.
O Pedro tem estado ligado a projectos em vários canais distintos. Qual é a sua opinião face aos contratos de exclusividade? Castram a liberdade de um actor?
Não vejo isso dessa forma, até porque tem um prazo pré acordado. A liberdade de uma pessoa, actor ou não, pressupõe escolher qual o caminho a seguir em determinado momento de vida, dependendo dos objectivos e ambições que tiver. A exclusividade pode ser uma limitação para uns, e uma forma de construção de uma liberdade (imediata ou a médio/longo prazo) para outros.
Nunca assinei ou li um contracto de exclusividade pelo que não sei exactamente que tipo de obrigações tem e que margem de manobra e escolha o actor pode salvaguardar.
Como foi a experiência de trabalhar no Brasil? Eles estão, realmente, mais à frente do que nós na representação? De onde vem um fluir tão natural que lhes transpira dos papéis que interpretam, que por cá é mais raro?
A experiência foi forte e positiva, ainda que muito dura. O processo de trabalho, a intensidade e as condições chegaram a estados muito próximos dos limites possíveis. Mas aquilo que fui fazer ao Brasil teve muito a ver com um processo pessoal. Fui fechar um ciclo. Fui mergulhar num país e numa cultura que admiro profundamente. Fui para crescer. E tudo isso eu fiz, da forma que fui capaz.
Quanto aos actores, não sei se eles estão “mais à frente”, usando a sua expressão. O que sei é que têm uma escola de televisão muito mais antiga que a nossa, têm um dos canais mais fortes do mundo (estudado internacionalmente como um fenómeno de poder dos media) e tem uma forma de estar na vida realmente mais gingada, mais solta, mais imediata. Se juntarmos essa postura de vida com a tal escola televisiva, com as prioridades da direcção artística e com a escrita com que trabalham, obtemos o tipo de resultado que reconhecemos como sendo “Brasileiro”.
Sente dificuldade em descolar-se das personagens a quem dá vida? É necessário um exercício de distanciação, um impôr de hiatos, para que a identidade própria não se dissolva/dilua?
Tive um professor que disse: “É necessário saber entrar na dor, tanto quanto saber sair, se quiserem ser actores”. Claro que não temos um botão para isso.
Tenho vindo a aprender que ser actor é uma actividade que realmente tem muito a ver com trabalho, no sentido da construção. A personagem não “desce sobre nós”. Ela é construída, composta, criada. Dá trabalho. Às vezes tira o sono. Faz-nos companhia. Chega a irritar-me. Acredito que quanto mais consistente ela for mais se distancia de nós próprios.
Leva o trabalho para a casa, ou, uma vez a porta fechada, volta a ser o Pedro?
Tenho que levar, porque preciso decorar o texto em casa. Também acontece de ficar a pensar na personagem, a trabalhar sobre ela, principalmente nas fazes iniciais de um trabalho.
Querer ser actor, é querer ser-se um outro? Denota insatisfação com a identidade pessoal? Compreende algum "voyeurismo", isto é, de espreitar, despindo-se de si, como é ser diferente?
Eu estou a gostar de ser eu, nesta vida, mais não seja por poder ser actor! O que eu quero é contar histórias, de preferência que mexam em assuntos que me interessam.
Uma vez vi uma entrevista com o Malkovich em que ele dizia “a mim pagam-me para fazer aquilo que outros, se fizessem, seriam internados no manicómio”. Tem humor, e uma certa razão, quanto a mim.
O que distingue isto do voyeurismo é a coragem de não ficar a observar de fora, com o nosso espaço protegido e o nosso sentido crítico a fazer juízos de valor. Cabe-nos passar para o lado de lá. Pormo-nos “nos sapatos do outro”.
Que projectos se seguem na sua carreira?
Segue-se a nova novela da autoria de Tozé Martinho, para a TVI. Seguir-se-á sempre a poesia, espero! E está a nascer um projecto que estava em “incubadora” há mais de quatro anos. É um projecto muito especial para mim, com o pianista Álvaro Teixeira Lopes. Trata-se de um espectáculo de poesia de língua Portuguesa, música que vem desde o barroco até ao contemporâneo e imagem de artistas plásticos e fotógrafos. O projecto ainda não tem nome certo, mas os primeiros espectáculos serão para o “Festival em Rotação” (entre o Porto e Vila Praia de Âncora) em Julho, e o “Festival de Outono” (Aveiro) em Setembro/Outubro, ambos com imagem de Manuela Pimentel. Este formato dos primeiros espectáculos vai chamar-se Amo-te.
Elsa Pereira - Jornal de Notícias - 14 de Junho de 2009
16 de janeiro de 2009
As Pessoas Sensiveis
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."
Ó vendilhões do templo
Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.
Sophia de Mello Breyner Andresen - in Livro Sexto
1 de janeiro de 2009
ESPECTÁCULOS 2009/2010
Bagagem de mão
Fazes-me falta (poemas de amor escolhidos por Inês Pedrosa)
Quando escreve descalça-se
Espectáculo de poesia e música inserido nas comemorações do Dia Internacional da Mulher com Carla Seixas (piano), Leonor Seixas e Pedro Lamares (leituras).
7 de Março, 21h30m - Teatro Faialense - cidade da HORTA -Faial, Açores.
8 de Março, 21h30m - Centro Cultural Ramo Grande - PRAIA DA VITORIA-Terceira, Açores.
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Pedro Lamares abre a sessão a dizer Fernando Pessoa e vai apresentando mais de vinte poetas e actores convidados, entre os quais: Nuno Júdice, Maria Teresa Horta, Fernando Echevarria, Pedro Tamen, José Tolentino Mendonça, António Osório, Manuel António Pina, Gastão Cruz, Ana Paula Tavares, Luís Carlos Patraquim, José Luís Tavares, Luís Quintais, Daniel Jonas, Alexei Bueno, Carlito Azevedo, Filipa Leal e Rui Morisson.




