28 de novembro de 2008

J.N. - Notícias TV



Como está a correr o desempenho em Olhos nos Olhos?
Estou a gostar. É um trabalho especial, dentro do que fiz em Televisão. Tem o texto do Vilhena e sua equipa que, quanto a mim, tem uma escrita acima da média. É ousado nos temas, tem um ritmo que não satura e um grande cuidado com a dramaturgia e as personagens. Consegue que as personagens sirvam a história, que já por si é complexa, sem sacrificarem a sua própria coerência e consistência. Isso é admirável, no ritmo de escrita e produção que está inerente a este mercado.

Gosta da sua personagem?
Gosto do facto de ser uma personagem em aberto. Ou seja, não sou só eu que o vou descobrindo e construindo, como normalmente acontece, mas também "ele" próprio se vai descobrindo e transformando. Acredito que as pessoas não são uma identidade estanque. Todos temos uma luz e uma sombra, o que nem sempre acontece nas personagens de novela.

O Jonas é muito diferente de si ou nem por isso?
Tem princípios muito semelhantes aos meus - como a integridade e o sentido de justiça - mas um contexto de vida completamente diferente. E isso é engraçado.

Ele não sabe o que quer na vida. E o Pedro?
Tenho dias. (risos) Também dei muitas voltas para descobrir as minhas vontades e ir construindo um caminho. Sempre tive uma ideia... Sabia mais ou menos o que não queria e sempre soube que queria trabalhar com pessoas, adoro trabalho de equipa. Até que percebi que queria trabalhar com arte e comunicar através dela, mas não sabia bem como, nem com qual, entre música, poesia, luz, fotografia, representação… O "espectáculo" tornou-se o caminho para conjugar tudo isto.

Tal como a personagem seria capaz de abdicar da carreira pela vida pessoal?
Eu não distingo as duas como coisas separadas. O trabalho faz parte da minha vida e eu transporto as minhas experiências de vida para o trabalho. Mas não sou uma pessoa muito carreirista. A minha prioridade é a experiencia de vida, os afectos, o crescimento. É bom quando o trabalho anda a par, ou quando uma coisa puxa a outra.

É um dos co-protagonistas. Este é o papel da sua vida?
Não faço ideia. Honestamente eu não meço a importância do trabalho pela incidência da personagem e sim pela qualidade, consistência, prazer que me dá, pessoas com quem trabalho, condições… por isso este trabalho é muito especial. Óptimo elenco, uma equipa de realizadores que, de facto, gosto muito e direcção de actores da Maria Henrique, que me tem dado uma grande ajuda

Sente agora que tem a oportunidade de provar que é um actor a sério?
Não. Sinto que tenho que me provar isso a mim a cada dia, em cada trabalho, para continuar neste ofício. Isso, para mim, é que é ser actor. Não é uma coisa que se possa dar por adquirida. Vai-se construindo e reciclando permanentemente, com a página em branco que é cada novo trabalho. Estamos sempre a começar de novo, mas acumulando experiência e adquirindo técnica, que também é importante.

A sua mulher da ficção está grávida. Na vida real, ser pai é também um desejo?
Sim, eu quero ser pai.

A novela está a passar quase à meia-noite. Como encara esse facto?
Com alguma pena, confesso. Por acreditar na qualidade deste produto gostava muito que mais gente tivesse acesso a ele. Que pudesse servir também para subir a fasquia de qualidade.

Há quem diga que as audiências abaixo das antecessoras se devem ao entrelaçar de vários temas fortes, como o swing, a homossexualidade, as orgias, o prolongamento artificial da vida... Acha que é mesmo por ser uma novela muito à frente?
Acho que é ousada e fico feliz com isso, porque provoca questionamento. E acima de tudo acho que é uma novela menos óbvia, ou seja, mais trabalhosa de fazer e de ver. Os acontecimentos desenrolam-se mais rapidamente, a trama é mais complexa e os diálogos não se repetem tanto como às vezes acontece nas novelas. Acredito que isso cative públicos diferentes do público habitual, e talvez menos numerosos. Mas, na verdade, o mercado das audiências continua a ser um tanto abstracto para mim.

Antes da representação estudou música. Actualmente que lugar é que esta ocupa na sua vida?
Um lugar muito forte. Ouço muito em casa pois continuo a não ter por hábito ver televisão. Além disso trabalho com músicos sempre que posso. Tenho tido projectos de poesia com pianistas, cantores, contrabaixistas, guitarristas … é uma forma de canalizar essa paixão. Poucas formas de arte mexem tanto comigo como a música.

Disse que não vê televisão. Mas assiste aos seus trabalhos, ainda mais estando em dois canais diferentes (TVI e RTP)?
Sim, tenho conquistado o hábito de ir monitorizando o meu trabalho, mas não me viciei em televisão. Vejo alguns documentários. Séries e um ou outro noticiário.

Além de Olhos nos Olhos e Paixões proibidas, está quase a aparecer na série Pai à Força, como o enfermeiro André…
Sim. É uma participação pequena que me deu um grande prazer. Fui muito bem recebido, gostei muito da equipa. Era feito com cuidado. Estou curioso de ver.

Sendo do Porto, sentiu algum estigma quando chegou a Lisboa para trabalhar?
Só na primeira vez, em 2002, a trabalhar em publicidade. Aí senti-me "praxado", não só por ser do Porto, como por ser totalmente novato na linguagem de câmara. Desde que comecei a trabalhar em ficção nunca senti isso. A única questão foi a pronúncia. Na minha primeira novela (Dei-te Quase Tudo), procuravam um actor do Porto porque era a origem do personagem. Aí pediram-me para acentuar a pronúncia. É sempre motivo de piada mas não me ofende. O que acho é que as pessoas se habituaram a que quase toda a gente na televisão tivesse pronúncia de Lisboa ou de Cascais. Isso foi aceite e integrou-se de tal forma que agora se considera "não ter pronúncia", mas não é verdade.

Mas o Jonas tem um especial sotaque do Norte. Foi propositado?
Não. No caso do Jonas devo dizer que tento limpar ao máximo as características da pronúncia, pelo simples facto de que ele é nascido e criado em Lisboa e que ninguém na família tem uma pronúncia nortenha, como tal não faz sentido. É óbvio que não consegui retirar completamente, ainda que acredite que está menos marcado. É um longo trabalho que tenho a fazer, como actor. Não só o de ser capaz de limpar a minha pronúncia como, sempre que necessário, trabalhar com alguma outra. "Vivendo e aprendendo", como dizem os brasileiros.



Sara Oliveira - J.N. - Notícias TV. 28 Nov 2008

2 comentários:

@ Daniela Rebelo disse...

Acho que é essa pronúncia de que se fala que me faz admirar tanto o teu trabalho... A tua voz é muito engraçada... É "sedutora" mesmo... No sentido em que fico parada a ouvi-la mesmo que não interesse em nada o que digas... É poderosa: segura, bonita e com pronúncia!! Eu não tenho por hábito ver novelas e quando passo por ali é por zapping... Estive por aqui a ver e tenho pena de nunca ter assistido a nenhum recital.. Acho que aí sim eu ia gostar imenso!

Mas parabéns!! Do pouquinho que vejo gosto do teu trabalho!

Anónimo disse...

Adoro ver-te em olhos nos olhos e adoro a tua pronúcia!!!
Beijos.